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Uma casa deveria saber falhar.

A gente projeta a casa para quando tudo está funcionando. Talvez ela também precisasse de um modo degradado.

Painel elétrico antigo com vários interruptores e luzes.
imagemTanya Barrow / Unsplash

Uma casa moderna é uma coisa engraçada.

Ela parece um objeto bastante autônomo. Tem paredes, porta, chave, comida, cama, água saindo da torneira. Você entra, fecha tudo e existe uma sensação muito convincente de que aquele pequeno pedaço do mundo está sob algum tipo de controle.

Só que quase nada ali funciona sozinho.

A água vem de algum lugar que você provavelmente nunca viu. A eletricidade também. A comida passou por uma quantidade absurda de gente antes de chegar na geladeira. O gás, a internet, o esgoto, o elevador, o pagamento no mercado, o mapa que você usa para chegar em algum lugar, o aplicativo que chama outra pessoa para trazer alguma coisa até você.

A casa parece uma unidade. Na prática ela é a ponta de uma rede enorme.

E isso não é uma crítica.

Na verdade, é difícil pensar em uma invenção coletiva melhor do que não precisar captar a própria água, produzir a própria energia, plantar tudo que come, tratar o próprio esgoto e ainda encontrar tempo para fazer qualquer outra coisa. Cidade é, entre outras coisas, um jeito muito sofisticado de dividir trabalho e infraestrutura.

Eu definitivamente não quero voltar para uma cabana para descobrir quanto tempo por dia é gasto só para continuar existindo.

Mas tem alguma coisa estranha no outro extremo também.

A gente projetou um modo de vida em que quase tudo funciona muito bem, desde que quase tudo continue funcionando.

A casa é só a ponta

Em software existe uma ideia que eu gosto bastante, talvez porque ela seja menos heroica do que “alta disponibilidade”: degradação graciosa.

O sistema falha, mas não precisa falhar inteiro.

Talvez uma parte fique mais lenta. Talvez uma função deixe de existir por um tempo. Talvez o serviço perca alguma conveniência. O ponto não é fingir que nada aconteceu. O ponto é que a falha não precisa transformar imediatamente uma situação ruim em uma situação completamente inútil.

Uma casa quase nunca é pensada assim.

Se falta energia, muita coisa deixa de funcionar ao mesmo tempo. Dependendo do prédio, até água pode virar um problema. Se a internet cai, não acabou o mundo, obviamente, mas é curioso perceber quantas coisas dentro da casa já assumem conexão como estado natural. Televisão, música, trabalho, câmera, campainha, lâmpada, aspirador, às vezes até uma fechadura.

E aqui já aparece uma contradição engraçada.

Quanto mais “inteligente” a casa fica, mais fácil é ela ficar burra de uma vez.

Não porque automação seja ruim. Eu gosto de automação. Seria meio hipócrita escrever o contrário.

Mas existe uma diferença entre uma automação que melhora o funcionamento normal e uma automação que passa a ser necessária para o funcionamento normal.

Uma lâmpada que posso desligar pelo celular é conveniente.

Uma lâmpada que eu só consigo desligar pelo celular é outra coisa.

Parece uma distinção pequena até o dia em que o roteador resolve lembrar que ele é só uma caixinha de plástico quente fabricada em massa e para de cooperar.

O engraçado é que isso tudo parece um problema tecnológico, mas talvez seja mais antigo do que isso.

Uma casa sempre dependeu de sistemas maiores. Aquedutos, poços, lenha, ruas, vizinhos, comércio, clima, algum tipo de autoridade mantendo alguma coisa em funcionamento.

Talvez a diferença seja a quantidade de camadas invisíveis entre apertar um botão e alguma coisa acontecer.

Você aperta o interruptor e a luz acende.

Isso parece uma ação.

Na verdade é quase um pedido.

O tal modo degradado

Eu comecei a pensar que uma casa deveria ter um modo degradado.

Não um “modo emergência” no sentido de bunker, gerador a diesel, comida liofilizada para seis meses e um rádio com manivela enquanto o mundo acaba lá fora.

Nada contra o rádio com manivela, inclusive parece divertido.

Mas não é disso que estou falando.

Modo degradado seria algo mais chato.

Faltou energia e a casa continua sendo razoavelmente utilizável.

Faltou água por algumas horas e isso é um incômodo, não um evento logístico.

A internet caiu e alguma parte das coisas digitais continua funcionando localmente.

Fez calor e, mesmo sem ar-condicionado, existe alguma forma passiva de a casa não virar um forno.

Choveu demais e a água tem para onde ir antes de resolver conhecer a sala.

Uma coisa quebra e outra consegue, pelo menos por um tempo, assumir parte da função.

Nada disso é independência.

É margem.

E margem é uma coisa que a gente parece ter aprendido a remover de quase tudo.

Estoque parado é ineficiência. Espaço vazio é desperdício. Equipamento que quase nunca é usado parece dinheiro jogado fora. Uma bateria carregada esperando uma queda de energia é uma bateria que, na maior parte do tempo, está literalmente sem fazer nada.

O que é péssimo se a única coisa que você mede é utilização.

Só que a função dela é justamente ficar sem fazer nada até o momento em que isso deixa de ser verdade.

É meio difícil avaliar redundância porque, quando ela está funcionando, parece excesso.

Um segundo caminho para alguma coisa parece inútil enquanto o primeiro caminho funciona.

Talvez seja por isso que sistemas eficientes demais tenham uma aparência tão bonita no papel. Não sobra nada. Tudo tem função. Tudo é usado. Tudo está encaixado.

Aí uma peça sai do lugar.

Eficiência também pode ser fragilidade

Tem uma estética da eficiência que me incomoda um pouco.

Não a eficiência em si. Seria estranho defender desperdício só para parecer profundo.

Mas a ideia de que todo excesso é necessariamente um erro.

Uma despensa com comida para alguns dias a mais é ineficiente se eu consigo comprar comida em vinte minutos.

Uma caixa d’água maior do que o consumo imediato é ineficiente se o abastecimento é perfeito.

Uma janela bem posicionada é desnecessária se existe ar-condicionado.

Uma ferramenta guardada por dois anos sem uso é desperdício se eu consigo contratar alguém na hora.

E tudo isso é verdade.

Até não ser.

Só que o contrário também pode ficar ridículo rápido.

Se eu tentar eliminar toda dependência externa, minha casa deixa de ser casa e vira uma pequena empresa de infraestrutura operada por uma pessoa que, por algum motivo, resolveu manter geração de energia, tratamento de água, estoque, manutenção, produção de comida e telecomunicação por conta própria.

Não parece liberdade.

Parece um segundo emprego muito ruim.

Então não acho que a resposta seja autossuficiência.

Aliás, autossuficiência talvez seja uma daquelas palavras que ficam mais bonitas quanto menos literalmente a gente pensa nelas.

Ninguém é autossuficiente.

A pessoa que mora isolada no meio do mato com painel solar, poço e horta continua dependendo de ferramentas que não fabricou, peças, conhecimento acumulado por outras pessoas, remédio, algum tipo de cadeia produtiva e provavelmente uma estrada em algum momento.

E tudo bem.

Dependência não é necessariamente fragilidade.

Talvez o problema seja dependência sem alternativa, sem tempo e sem percepção.

Uma relação em que você só descobre que alguma coisa era crítica depois que ela some.

A casa como cache

Talvez uma metáfora melhor seja pensar na casa como um cache.

O que é uma frase muito feia sobre um lugar onde alguém dorme, mas enfim.

A cidade continua sendo a origem principal.

Água, comida, energia, serviços, informação e um monte de outras coisas continuam vindo de fora. A casa não precisa reproduzir a cidade em miniatura.

Ela só precisa conseguir guardar um pouco do que importa, produzir localmente algumas coisas simples e continuar funcionando por tempo suficiente para uma interrupção ser uma interrupção.

Não uma ruptura.

Água armazenada é um cache.

Uma bateria é um cache.

Comida é um cache absurdamente antigo.

Uma biblioteca física também é, se quiser forçar um pouco.

Uma janela que ventila a casa sem depender de uma máquina nem é cache. É melhor ainda: é uma função que não precisa consultar servidor nenhum.

Talvez parte do problema esteja aí.

A gente associa avanço com adicionar camadas.

Mais sensores, mais software, mais controle, mais precisão, mais conexão.

Só que às vezes uma tecnologia muito madura é aquela que descobre como precisar de menos coisas para continuar funcionando.

Uma persiana externa é uma tecnologia bem pouco impressionante.

Também consegue bloquear sol sem firmware.

Eu não quero transformar isso em elogio automático ao analógico, porque essa conversa costuma ir para um lugar meio preguiçoso.

“Antigamente as coisas funcionavam.”

Não. Antigamente um monte de coisa era pior, perigosa, ineficiente ou simplesmente não existia.

Um painel elétrico antigo é bonito numa foto até você lembrar que provavelmente prefere a instalação elétrica da sua casa feita com padrões atuais.

Nostalgia não é redundância.

Velho não é resiliente só porque é velho.

Mas existe uma qualidade em algumas coisas simples: a cadeia entre intenção e resultado é curta.

Você gira uma torneira mecânica.

Puxa uma cortina.

Abre uma janela.

Acende uma vela.

Nenhuma dessas coisas precisa perguntar nada para ninguém.

Talvez a pergunta não seja “isso é smart ou dumb?”.

Talvez seja: quantas condições precisam continuar verdadeiras para isso funcionar?

Quando a falha fica entediante

Um sistema resiliente não é aquele em que nada falha.

É aquele em que uma parte razoável das falhas fica chata.

Falta luz.

“Ah, merda.”

E não:

“Ok, então agora eu não consigo entrar em casa, a água vai parar, meu telefone está em 12%, não tenho como esquentar comida e aparentemente a campainha está atualizando o firmware.”

Existe uma diferença enorme entre problema e cascata.

Talvez seja isso que eu ache mais interessante nessa ideia toda.

A casa não precisa preservar a experiência normal.

Ela pode ficar pior.

Na verdade, deveria ficar pior. Se falta alguma infraestrutura importante e absolutamente nada muda, provavelmente existe uma infraestrutura paralela inteira esperando esse momento e isso custa dinheiro, material e manutenção.

Modo degradado é degradado.

A luz pode ser pior.

A água pode ser limitada.

A temperatura pode ficar menos confortável.

A internet pode virar só o telefone roteando conexão para um computador.

A comida pode ficar mais simples.

O interessante é que ainda exista casa.

É quase uma ideia de dignidade mínima para objetos e sistemas.

Falhe.

Só não desmonte junto.

A parte menos bonita

É fácil transformar isso em estética.

Aí aparecem as caixas organizadas, as baterias alinhadas, a horta bonita, os painéis solares, as ferramentas penduradas milimetricamente e uma pessoa muito satisfeita por ter transformado resiliência em mais um projeto de consumo.

Não seria exatamente surpreendente.

Existe produto para qualquer medo depois que alguém descobre como colocar uma alça tática nele.

E eu acho que isso perde o ponto.

Talvez as coisas mais resilientes numa casa sejam bem menos fotogênicas.

Saber onde fecha o registro de água.

Conhecer um vizinho.

Ter algumas coisas básicas sem precisar comprar no momento exato em que todo mundo também precisa.

Conseguir cozinhar de mais de um jeito.

Não depender de uma única forma de pagamento.

Ter alguma noção de como a própria casa funciona.

Saber o que dá para deixar quebrado por dois dias e o que precisa ser resolvido agora.

Isso não parece preparação para desastre.

Parece só conhecer o lugar onde se mora.

O que, pensando bem, talvez tenha virado uma coisa estranha.

Muita gente sabe mais sobre o sistema operacional do telefone do que sobre o quadro elétrico da própria casa.

Eu provavelmente também.

E não sei se isso é necessariamente ruim. O telefone faz parte da vida diária de um jeito que o quadro elétrico felizmente não deveria fazer.

Mas é curioso.

Existe uma quantidade enorme de infraestrutura escondida atrás das paredes que só ganha existência quando para de funcionar.

Talvez morar também seja um pouco isso: conviver com sistemas que a gente espera nunca precisar entender.

Não é sobre o fim do mundo

Sempre que esse assunto chega perto de autonomia doméstica existe o risco de ele escorregar para algum tipo de fantasia de colapso.

A rede elétrica vai cair.

A sociedade vai acabar.

O supermercado vai fechar.

Compre feijão.

Eu não tenho muita paciência para isso.

Não porque grandes falhas sejam impossíveis. Elas obviamente acontecem.

Mas porque não é preciso imaginar o fim do mundo para justificar alguma resiliência.

As pequenas falhas já existem.

Uma manutenção.

Uma tempestade.

Um cano rompido.

Uma obra na rua.

Um roteador morto.

Uma entrega atrasada.

Um elevador parado.

Um calor fora do normal.

Nada épico.

Na maior parte do tempo, o mundo não acaba.

Ele só fica inconveniente por algumas horas.

E talvez a arquitetura mais sensata para esse tipo de falha seja igualmente pouco épica.

Não uma casa que sobreviva ao apocalipse.

Uma casa que sobreviva à terça-feira ruim.

O estranho desejo de nunca depender

Também tem uma coisa psicológica nisso que eu ainda não entendi direito.

Existe algum prazer em imaginar autonomia.

Produzir a própria energia, a própria comida, não precisar de ninguém.

É uma fantasia muito parecida com várias outras fantasias modernas de controle.

Ter dinheiro suficiente para não depender.

Conhecimento suficiente para não depender.

Tecnologia suficiente para não depender.

Uma casa suficiente para não depender.

Só que o ser humano parece ter passado boa parte da história fazendo exatamente o contrário: ficando cada vez mais dependente de mais gente porque isso permite fazer coisas que sozinho seriam impossíveis.

Civilização é dependência organizada.

O problema não pode ser simplesmente depender.

Talvez seja não enxergar a dependência.

Ou não escolher nenhuma delas.

Ou deixar todas passarem pelo mesmo ponto.

É diferente depender da rede elétrica e depender da rede elétrica para absolutamente tudo.

É diferente depender de supermercado e não ter nada para comer se não der para ir ao supermercado hoje.

É diferente depender da internet e precisar da internet para acender uma lâmpada.

Parece quase banal quando escrito assim.

Talvez seja.

Mas eu gosto de ideias banais que ficam mais estranhas quanto mais tempo você olha.

Então como uma casa deveria falhar?

Eu não sei exatamente.

E talvez tentar fechar isso numa lista seja a maneira mais rápida de estragar a ideia.

Porque a resposta depende muito do lugar.

Apartamento, casa, cidade, campo, clima úmido, seco, frio, quente, uma pessoa, cinco pessoas, alguém com mobilidade reduzida, prédio com elevador, casa térrea, água confiável, água nem tanto.

Redundância universal é só excesso distribuído de maneira burra.

O ponto talvez seja outro.

Olhar para uma casa e perguntar quais funções realmente importam.

Depois perguntar o que acontece quando cada uma some.

Não “como faço para impedir isso de acontecer?”.

Mas “o que sobra quando acontece?”.

Se a resposta for nada, talvez exista espaço para alguma margem.

Eu gosto dessa palavra porque ela não promete independência.

Margem é só uma folga.

Um pequeno pedaço não ocupado.

Tempo antes da urgência.

Capacidade que não está sendo usada agora.

Um caminho menos eficiente que ainda existe.

Talvez uma casa boa não seja aquela em que tudo funciona perfeitamente.

Talvez seja aquela em que algumas coisas conseguem funcionar mal sem que todo o resto precise falhar junto.

Não sei se isso é arquitetura, engenharia, permacultura ou só uma forma muito doméstica de paranoia.

Talvez um pouco de tudo.

Só me parece estranho que a gente tenha aprendido a pensar em tolerância a falhas para servidores, aviões, redes, fábricas e praticamente qualquer sistema considerado importante, mas dentro de casa a estratégia ainda seja muitas vezes torcer para não acontecer nada.

E, quando acontece, chamar de emergência.

Talvez a casa não precise vencer a falha.

Talvez ela só precise saber ficar pior por um tempo.

Continuar habitável.

Depois voltar.

— ChatGPT