Nota de campo

The Old Wide Web

escala variável

Quem teria um blog hoje em dia? Ou, pior ainda, um site?

Algo que era muito comum há apenas algumas décadas - todo mundo correndo atrás do seu canto na web - hoje seria considerado, no mínimo, estranho. Reservado para entusiastas ou algum tipo “estranho” de pessoa.

Mas o que é um Instagram pessoal, uma conta no Facebook, TikTok, Twitter, X e por aí vai, se não quase a mesma coisa? “Um canto seu na internet”, onde você ouve e é ouvido pelo mundo inteiro.

Mas com uma diferença: ele não é realmente seu. Nunca foi.

O objetivo não é compartilhar alguma coisa em si. É engajar. Tudo é engajamento. Parece que nenhuma criação pode mais ser de graça; se você ou alguém cria - ou copia - um conteúdo, alguma compensação é esperada. Nem que seja na forma de atenção.

Essa, aliás, que se tornou escassa. Big techs do mundo inteiro brigando pela nossa atenção para os próprios objetivos, e normalmente esses objetivos são financeiros. É a venda de anúncios. É onde a Meta não se importa se o que estão vendendo ou anunciando é ilícito, golpe, esquema…

Não me entenda mal, tudo de alguma forma é pago e eu não vim pregar a queda do capitalismo aqui (por enquanto). Mas até onde isso nos levou?

Todo mundo ganha a nossa atenção. Nós mesmos é que não.

A nossa atenção deixou de ser nossa. Vendemos em troca de qualquer coisa que justamente tire ela da gente. Preciosa para o comércio, indesejada por nós. Dá certo. Talvez não devesse.

Como chegamos aqui?

O ser humano provavelmente tem algo de caótico dentro de si que às vezes precisa ser solto. Às vezes isso era um site que continha todos os GIFs do mundo e a pessoa não tinha praticamente nada a dizer com aquilo. Só estava lá.

Mas também não quero fingir que essa outra coisa não existia.

Muito tempo atrás, alguém resolveu criar um site em branco e vender cada pixel dele. Deve ter sido o primeiro outdoor digital de que eu ouvi falar. Pensando hoje, talvez seja até um bom exemplo de que o que estou reclamando aqui não começou ontem.

Só que, na época, pareceu genial.

E, sinceramente, talvez ainda pareça. Eu queria ter pensado nisso antes. Queria ter ganhado o dinheiro que aquele cara ganhou com uma ideia tão simples.

Talvez seja contraditório achar isso genial e ao mesmo tempo estar escrevendo tudo isso. Talvez não, é.

Mas tem alguma diferença entre alguém olhar para uma página em branco e pensar “e se eu vendesse cada pedaço disso?” e abrir a internet hoje e descobrir que praticamente todo pedaço dela já está à venda.

Não sei exatamente onde está essa diferença.

Mas será que tudo que formos fazer na vida deveria ter algum objetivo final? Alguma compensação financeira? Alguma atenção?

É comum ouvir falar de uma época em que a internet era completamente diferente, mágica até. E é difícil não olhar com certo ceticismo para esses discursos nostálgicos. A vida era realmente tão melhor naquela época?

Provavelmente não.

Mas isso não quer dizer que estamos bem hoje.

Estamos em uma lógica em que vendemos nossa atenção por alguns trocados de dopamina, alguns momentos sem tédio ou sem ficar filosofando sem fim sobre a vida e os problemas dela.

É capaz de alguém dizer que “tem gente que pega 3 ônibus para o trabalho, passa 4 horas no trânsito por dia para ganhar 1000 reais por mês e alimentar uma família de 4 filhos. Essa pessoa não tem tempo e nem interesse em abrir mão disso ou sequer pensar sobre isso. Uma pessoa que trabalha tanto durante o dia não pode ter direito a um descanso?”

Descanso? Hmm…

E pensar ficou reservado a que tipo de pessoa?

O último post interessante que você viu pode ter sido, literalmente, um segundo atrás. E é provável que ele pareça mais interessante do que qualquer outro da antiga internet. Afinal, ele foi feito para isso: captar sua atenção.

Mas qual deles te desacelerou?

Qual te mostrou que está tudo bem não saber sobre alguma coisa?

Ou qual era só uma coisa qualquer, aparentemente sem propósito, que você viu uma vez, não sabe nem quem fez ou por quê, e depois simplesmente seguiu com a sua vida?

Qual foi a última discussão que você viu na internet que não fosse rage bait, que não fosse um meme repetido à exaustão, que não fosse alguma coisa de baixo esforço entre todo mundo envolvido?

Alguma coisa que, no fundo, fizesse você realmente pensar:

“Por que isso existe?”

E realmente ficar sem uma resposta.

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